VW 2025

As mulheres do chão de fábrica à oficina no setor automotivo

A presença feminina nas várias áreas que integram a produção, venda e reparos de automóveis cresce significativamente no Brasil.

Desde quando surgiu o veículo com motor a combustão interna, a mulher tem um papel fundamental na criação e desenvolvimento dos automóveis.

Não podemos esquecer da primeira piloto de testes automotivo Bertha Benz. Ela era esposa de Karl Benz, o engenheiro inventor do automóvel com o motor a combustão interna, patenteado em 1886. O veículo parecido com um velocípede grande, recebeu o nome de Motorwagen.

Faltava dinheiro para aprimorar a invenção e, com uma atitude corajosa para a época, ela dirigiu de Mannheim até Pforzheim, na Alemanha, levando os filhos Richard e Eugen, de 13 e 15 anos, para pedir recursos financeiros aos pais e investir na invenção.

Durante o trajeto, de maneira criativa, ela foi solucionou problemas que surgiram, como a falta do freio, entupimento da linha de combustível, entre outros.

Durante o avanço da indústria automotiva mundial, os homens foram os preferidos para trabalhar nas linhas de montagens e desenvolvimento dos modelos, enquanto que as mulheres estavam concentradas nos trabalhos burocráticos.

Porém, elas também se interessaram por engenharia, design, mecânica, entre tantas outras necessidades que envolvem a fabricação de um automóvel e conquistaram seu espaço.

Uma destas mulheres é Simone Fialho engenheira mecânica plena. Formada na FEI de São Bernardo do Campo, ela explica que a designação ‘plena’, refere-se ao chão de fábrica. Trabalha na Volkswagen do Brasil há 30 anos, iniciou como estagiária e hoje ocupa o cargo de supervisora executiva da qualificação do produto, responsável por Brasil e América do Sul.

É importante destacar que Simone escolheu o caminho profissional, sem influencia familiar. “Ninguém da minha família é da área técnica, tanto minha mãe, como meu pai, foram executivos de empresa, papai inclusive trabalhou aqui na VW. Meus irmãos foram para humanas, e minha dúvida era a de fazer só o colégio, mas uma amiga me incentivou a me matricular no colégio técnico, assim, entrei na ETI –na época Escola Técnica Industrial Lauro Gomes e hoje ETEC Lauro Gomes –, e me encontrei.

Simone Fialho
Foto: Divulgação

Depois do colégio técnico entrei na FEI, comecei como estagiária na VW em janeiro de 1996, penúltimo ano de graduação e me formei em 1997”.     

Era um período com poucas mulheres que se interessavam por engenharia, Simone lembra que na sua formatura, apenas 8 mulheres de todas as áreas estavam na colação de grau.

Quando iniciou estágio na fabricante de automóveis, no processo seletivo participaram apenas 5 candidatos que estavam concorrendo, e ela era a única representante do sexo feminino. “Só eu consegui a vaga”, lembra com orgulho.

Apesar de ser considerado um espaço dominado por homens, a engenheira mecânica, não sentiu discriminação. “Penso que o fato de ter feito curso técnico, geralmente muito masculino, e sempre trabalhar em áreas mão na massa, chão de fábrica, faz com que o segmento automotivo me veja sempre como profissional. Eles respeitam minha feminilidade, ganhei credibilidade na minha área. Em outras áreas, quando há necessidade de decisões técnicas, a minha tem de estar lá. Eu não sofri preconceito e não sofro, entendo que tenham mulheres que possam ter sofrido, mas eu não passei por isso”, afirma.

Ela explica os detalhes da sua função e como participa do desenvolvimento e produção dos automóveis que a montadora comercializa no Brasil e exporta, pois é responsável por todas as peças metálicas de um veículo, desde o chassi até a carroceria. “O design idealiza. A engenharia coloca a ideia no papel. E a minha área tira esse desenho do papel e faz virar peça. Após definir quem serão os fornecedores, a minha área auxilia desde o ferramental que será usado, e atua diretamente no desenvolvimento do processo produtivo, dispositivos de controles, até a peça estar pronta para virar série”.

Com três décadas de carreira na VW do Brasil, Simone passou por várias áreas, até alcançar o cargo atual. Participou de muitos projetos que se tornaram ícones da indústria, um dos mais recentes foi o Nivus, um carro global desenvolvido e fabricado no País. “O Nivus fez toda a equipe se reinventar, pois trabalhamos em grande parte do projeto em regime home office, por causa da pandemia. Só foi possível, porque a integração entre as várias áreas é perfeita. Todos trabalham há muito tempo na casa e sabem onde está a pedra no caminho e desviam antes”.

A engenheira mecânica Simone Fialho foi eleita a ‘Líder do ano da Qualidade 2025’, pela Volkswagen do Brasil, prêmio dado aos que mais se destacaram em sua área de atuação. “Foi uma grata surpresa. Foi como ganhar o Oscar, a diferença é que eu nem sabia que estava concorrendo. Foi gratificante saber que sou uma líder que inspira, entre os mais de 50 executivos que atuam na área da qualidade”, comemora.

Para as mulheres que desejam trabalhar no setor automotivo, seja na montadora, fabrica de autopeças, varejo ou na oficina mecânica, Simone dá uma dica. “Persevere! Seja resiliente. Não perca tempo reclamando que não te escutam. Fale mais alto, mas com propriedade que vão acabar te dando atenção. Com seu conhecimento, postura e maneira de falar, vai conquistar seu espaço, independente de ser mulher ou homem”, afirma.    

Volkswagen do Brasil investe na contratação de mulheres
Foto: Divulgação

A engenheira Simone Fialho pode ser considerada uma desbravadora, pois iniciou um processo de atuação feminina que evoluiu ao longo dos anos.

Nos dias de hoje, a montadora investe na contratação e formação de colaboradoras em todas as áreas. Segundo divulgado, a liderança de mulheres na empresa aumentou de 12,5% (em 2021) para 24,8% (em 2025).

Só no ano passado, a fabricante gerou 587 novos empregos diretos para a linha de produção, dos quais cerca de 50% do efetivo são mulheres.

Na unidade industrial Anchieta, localizada em São Bernardo do Campo, foram criados 27 novos postos de trabalho diretos, dos quais cerca de 50% ocupados por mulheres.

Por sua vez, a fábrica de Taubaté, interior de São Paulo, foi modernizada, e recebeu a linha de montagem do SUV compacto Tera.

Lá 260 novos colaboradores passaram a integrar as equipes de trabalho. Deste total de contratações, as mulheres representaram 40%.

Em São Carlos, interior de São Paulo, onde são fabricados os motores EA211 (1.0 MPI, 1.0 TSI, 1.4 TSI e 1.6 MSI), foram gerados 68 novos empregos diretos dos quais 50% ocupados por mulheres.

E, fora do Estado de São Paulo, em São José dos Pinhais, no Paraná, onde são produzidos o T-Cross e o Virtus, e em breve a picape Tukan, primeiro modelo eletrificado da marca no País, foram admitidos 232 novos funcionários diretos no ano passado, dos quais 50% são do sexo feminino.

Além disso, desde 2023, a VW é a única montadora signatária de 5 fóruns de Diversidade & Inclusão. São eles: Movimento Mulher 360, da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, da REIS (Rede Empresarial de Inclusão Social – para inclusão de PcDs) e do Fórum Gerações e Futuro do Trabalho.

Sindirepa-SP promove ciclo de palestras para mulheres
Sindirepa-SP e Senai promovem treinamento para as mulheres que atuam em oficinas
Foto: Divulgação

Não foi só nas fabricantes de automóveis e autopeças que as mulheres encontraram seu espaço, elas também estão nas oficinas reparadoras de automóveis.

Atento a essas transformações do mercado, o Sindirepa-SP reconhece o papel cada vez mais relevante das mulheres na reparação de veículos, assim, em parceria com a Escola SENAI, a entidade desenvolveu um projeto exclusivo de capacitação técnica básica voltado ao público feminino que atua em áreas de gestão de oficinas.

O principal objetivo é ampliar o conhecimento e a segurança dessas profissionais no atendimento ao cliente e em rotinas administrativas, além de abrir portas para que elas possam também se desenvolver em áreas técnicas dentro das empresas.

A iniciativa surgiu a partir da demanda das oficinas associadas, que já contavam com mulheres nas áreas de atendimento e gestão, mas identificavam a falta de base técnica para esclarecer dúvidas de consumidores e dialogar com a equipe de reparadores com maior propriedade.

A partir desse cenário, Sindirepa-SP e SENAI desenvolveram o “Treinamento Técnico Básico para Mulheres – Acelerando e Descomplicando Conhecimento”, o ciclo contou com um total de 8 palestras práticas e objetivas, com foco na realidade das oficinas que reuniu 103 participantes entre os eventos realizados ao longo de março o mês das mulheres.

As palestras foram ministradas pelo técnico da Mahle Metal Leve, instrutores da Escola SENAI e uma específica de atendimento ao cliente conduzida por técnico da fabricante de automóveis GWM. Os encontros abordaram na maioria, temas técnicos, porém, sempre com linguagem acessível e foco em situações do dia a dia.

Entre as principais palestras, as participantes receberam informações sobre mecânica básica, revisão preventiva, funilaria, pintura e estética automotiva, carro elétrico para iniciantes, ar-condicionado e atendimento ao cliente.

A entidade estuda a continuidade e ampliação do Ciclo de Palestras, seja com novas turmas, conteúdo mais avançado, mas sempre acompanhando as transformações tecnológicas e a crescente presença das mulheres na reparação de veículos.

Por: Edison Ragassi

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