Os modelos eletrificados representam 16% das vendas de automóveis novos emplacados no primeiro semestre. Eles irão para a sua oficina.
No ano passado, o consumidor brasileiro presenciou uma onda de fabricantes chineses que entraram no mercado com veículos elétricos e híbridos a preços competitivos.
Os eletrificados incluem os automóveis 100% elétricos (BEV), híbridos plug-in (PHEV) e híbridos sem recarga externa (HEV e HEV Flex). A Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) excluiu de seus levantamentos os micro-híbridos (MHEV), que são comercializados pelo Grupo Stellantis.
Esses modelos com muita tecnologia embarcada chamaram a atenção dos compradores, tanto que o mês de dezembro foi considerado “espetacular” em vendas pela ABVE. Os cálculos da entidade mostraram que os eletrificados leves no Brasil fecharam 2025 com 223.912 unidades emplacadas, o que representou um novo recorde anual da série histórica e um crescimento de 26% sobre os números de 2024, quando foram vendidas 177.358 unidades destes modelos.
Recorde de emplacamentos em 2026
Esta tendência de crescer em vendas continua em 2026, no primeiro semestre os eletrificados bateram recorde no número de emplacamentos com 215.023 unidades comercializadas. Segundo divulgado pela entidade, elas foram impulsionadas pelo crescimento dos modelos 100% elétricos e híbridos. Os dados oficiais apontam alta de 125% em relação ao mesmo período de 2025.
Deste total, cerca de 90.626 unidades vendidas foram de modelos 100% elétricos (BEV), um salto de quase 200%, isso comparado ao primeiro semestre do ano passado. Os híbridos (HEV e PHEV) somaram 154.472 unidades comercializadas, uma alta de 85% sobre o ano passado, ou seja, de cada 100 veículos leves vendidos no país, 16 já foram eletrificados.
Arcélio Junior, presidente da FENABRAVE – Federação Nacional Distribuição Veículos Automotores, identificou essa tendência de avanço dos eletrificados no mercado nacional. “Percebemos que os híbridos vendem mais que os elétricos puros que ainda não representam 10% da frota. Como no Brasil temos a opção do Etanol, um combustível sustentável, e as fabricantes começaram a oferecer modelos híbridos flex, nossa previsão é de que os veículos com motor a combustão e elétrico continuem vendendo mais que os elétricos puros, porém eles também têm seu nicho de mercado e continuaram crescendo em vendas”, projeta ele.

Esta evolução do sistema de propulsão dos automóveis fez as faculdades e universidades de engenharia ampliarem sua grade de matérias.
Fernando Landulfo, Mestre em engenharia mecânica pela UNICAMP, com 40 anos de atuação no setor automotivo dos quais 25 anos como professor, e atualmente responsável pelo Instituto Monitor, Canal Autoacademico e Landtech Consultoria, explica que a eletrificação é uma ótima oportunidade para evolução profissional. “Esse é um assunto que interessa muito para a academia, porque é preciso formar uma geração de engenheiros que atuem nessa área para desenvolver e implementar essas tecnologias aqui no Brasil, não basta trazer de fora. Existem competições de veículos eletrificados promovidas pelas universidades para incentivar o desenvolvimento. Faculdades como Anhembi Morumbi, FEI e Instituto Mauá formam alunos com ênfase na eletrificação, mas sem esquecer o passado, porque os motores a combustão estão aí e continuam por um longo tempo.
Escolas técnicas como o SENAI desenvolvem esse tema tanto na parte de gestão como na parte técnica, para a formação de mão de obra especializada. Mas aqui no Brasil, o crescimento dos veículos totalmente elétricos vai depender da infraestrutura. É necessário instalar pontos para carregar, carga rápida, não dá para o usuário ficar parado 12 horas para carregar a bateria. E também vai depender da infraestrutura de manutenção. Hoje o engenheiro se preocupa muito com a vida útil da bateria. O valor do carro está atrelado ao valor da bateria. Elas têm uma vida estimada entre 10 a 15 anos. Precisa ser estudado, quando acabar vale trocar por uma nova ou reciclar o carro? São esses os detalhes avaliados pelo meio acadêmico”, analisa Landulfo.

Reparadores automotivos independentes buscam atualização
Com objetivo de compartilhar informações técnicas de alto nível, focar na melhoria contínua, qualificação e serem reconhecidos pela excelência e qualidade dos serviços prestados, surgiu em 2015, por iniciativa de Sandro Araújo (oficina Multijet), a Associação dos Mecânicos Premium Brasil (AMPB), a qual recebeu o CNPJ em 2017.
Os associados trabalham com modelos Premium e Super Premium, vendidos em poucas unidades no País, o que torna o acesso a peças e literatura técnica um verdadeiro desafio. O principal objetivo da associação, conforme rege o novo Estatuto, é unir o grupo para transpor essa barreira através da tecnologia e da gestão. Atualmente é formada por 61 oficinas, das quais 56 estão no Brasil, espalhadas por 15 estados e outras 5 no exterior.
A chegada dos veículos eletrificados fez os Mecânicos Premium buscarem conhecimento, atualização e ferramentas para atender esta demanda.

Alan Dalbosco, Presidente da AMPB, explica como eles se organizam. “Nossa atuação é forte e baseada em parcerias com grandes fabricantes e sistemistas do setor automotivo, assim, realizamos com frequência missões técnicas (nacionais e internacionais), além de nossos seminários e convenções. Estamos próximos de iniciar mais uma maratona de conhecimentos internacional em veículos eletrificados junto com a Bosch”.
Segundo o presidente, as oficinas associadas já atendem os modelos eletrificados que circulam no Brasil, inclusive nos reparos de bateria, graças ao associativismo. “Todos os associados hoje estão preparados em algum nível para atender veículos híbridos e elétricos, pois independentemente de onde a oficina esteja, caso ela não tenha todos os equipamentos e as ferramentas para atendimento, os associados trocam entre si conhecimento técnico, ferramentas e serviços. Assim, se um cliente viajar até Porto Alegre, Recife, Cacoal ou Macapá, ele tem uma rede de suporte para o veículo eletrificado”. E completa, “quando é necessário reparar as baterias, caso a oficina não faça, ela terceiriza dentro do grupo e redireciona o serviço para outro membro associado, assim essa parceria entre os integrantes faz total diferença para os clientes em geral”.
A busca por especialização e conhecimento amplo não para. É um exemplo a ser seguido. “Recentemente, aprovamos nosso Plano Diretor para a próxima década, o que consideramos um passo histórico. Ele contempla uma nova onda de treinamentos e mentorias totalmente voltados para a gestão das oficinas. Organizamos um painel de dados integrado (Dashboard), onde guiaremos a nossa Associação através de inteligência de mercado (Data-Driven). Isso significa que as oficinas da AMPB não apenas consertarão carros com perfeição, mas também terão a sua saúde financeira, tributária e administrativa otimizada, finaliza Dalbosco.

Por todo o Brasil, os reparadores automotivos se organizam para buscar melhores condições de trabalho e compartilhar conhecimentos. No ABCD paulista, região considerada como berço da indústria automobilística, está o Grupo RAE – Reparadores Automotivos Especializados, formado por 220 oficinas, das quais 90% estão localizadas na região, elas empregam uma média de 800 reparadores. Eles promovem ações sociais, cursos, palestras e treinamentos.
Sergio Melo, vice-presidente do Grupo, fala sobre o processo que implementaram para que os integrantes do RAE recebam atualização e tenham contato com as novas tecnologias. “Com apoio das indústrias de autopeças, organizamos mensalmente cursos e palestras. Também firmamos acordo com o SENAI e outras instituições de ensino, essa parceria permite que os integrantes participem dos cursos, palestras e treinamentos, não só para veículos eletrificados, mas também os com motores a combustão com descontos”.

Beatriz Reichert, presidente da AutoRede, que reúne 17 oficinas e atua no Vale dos Sinos e Litoral de Santa Catarina, trabalha forte para se atualizar e atender esta nova demanda. “A evolução da mobilidade elétrica é uma realidade que transforma o mercado automotivo. Com o crescimento da frota de veículos híbridos e elétricos, a capacitação técnica tornou-se um fator essencial para que as oficinas estejam preparadas para atender essa nova demanda com segurança, qualidade e eficiência”, declara.
Segundo a presidente, essas empresas que formam a Autorede são comprometidas com a excelência e a atualização constante. “Nos dias de hoje, 80% dos associados já possuem certificação para o reparo e a manutenção de veículos híbridos e elétricos, isso confirma que temos o preparo técnico necessário para atuar com segurança e qualidade nesse segmento em constante crescimento. Esse resultado é fruto do compromisso da Autorede em oferecer aos seus associados as melhores oportunidades de desenvolvimento profissional. Nossa missão é trazer os profissionais mais qualificados e reconhecidos do mercado para ministrar treinamentos atualizados, acompanhando a evolução das tecnologias automotivas e as novas demandas do setor”, explica.
Nesta constante busca por atualização, os cursos de veículos híbridos e elétricos integram esse compromisso com a excelência. “Mais do que acompanhar as tendências, a Autorede prepara seus associados para o futuro da reparação automotiva, proporciona conhecimento técnico de alto nível, segurança nos procedimentos e maior competitividade no mercado”. E complementa a presidente da AutoRede. “Investir em capacitação é investir no crescimento das oficinas e na confiança dos clientes. A Autorede continua seu trabalho para oferecer sempre o que há de melhor em treinamento, inovação e desenvolvimento. E assim fortalecer seus associados e contribuir para uma reparação automotiva cada vez mais qualificada”.

Entidades de classe apoiam os associados para qualificação
Com o apoio do Sindirepa-SP, que é presidido por Antonio Fiola, o SENAI-SP “Escola Conde José Vicente de Azevedo”, considerada a primeira escola de mecânica automotiva do Brasil, lançou 12 cursos EAD online grátis que abrangem temas sobre eletromobilidade, veículos elétricos e híbridos, técnicas de retífica, motores a combustão, metrologia e boas práticas. Além disso, desenvolveu o curso de pós-graduação em Veículos Elétricos e Híbridos, esse é pago, porém associados da entidade de São Paulo recebem desconto nas mensalidades. O principal objetivo é de formar especialistas com uma visão atualizada dos conceitos gerais da eletromobilidade e das tecnologias disponíveis no segmento de veículos elétricos e híbridos, as aulas presenciais são voltadas para portadores de diploma de curso superior nas áreas mecânica, mecatrônica, eletroeletrônica, produção e áreas correlatas com duração de 18 meses e conteúdo atualizado e prático.

Sandro Cruppeizaki, da Mecânica Beto, localizada em Curitiba (PR) é o atual presidente do Sindirepa – PR. “Nós percebemos um crescimento significativo no interesse dos empresários da reparação de automóveis em investir em capacitação, equipamentos e adequações para o mercado dos veículos eletrificados, impulsionado pelo aumento da frota no Brasil. O papel do Sindirepa é justamente apoiar essa transição. Assim investimos fortemente em programas de qualificação técnica, em parceria com o SENAI, que oferece cursos específicos sobre eletromobilidade, segurança em sistemas de alta tensão, manutenção de veículos híbridos e elétricos.
Incentivamos a atualização constante dos empresários para que possam investir de forma planejada, priorizar a capacitação, aquisição de ferramentas adequadas e cumprimento das normas de segurança”, explica.
O número de emplacamentos de híbridos e elétricos que aumenta a cada dia confirma que estes modelos chegaram para ficar, e são ótimas oportunidades para gerar novos negócios. “A eletrificação da frota é uma realidade sem volta e as oficinas independentes precisam estar preparadas para acompanhar essa transformação. Nosso trabalho é oferecer conhecimento, capacitação e orientação para que os reparadores façam essa transição com segurança e qualidade. Não basta apenas adquirir equipamentos, é fundamental investir na formação das equipes e na atualização técnica contínua. O Sindirepa tem atuado para que as oficinas paranaenses estejam cada vez mais preparadas para atender essa nova demanda do mercado, garantir competitividade e segurança aos consumidores”, afirma o presidente do Sindirepa- PR.

Os veículos eletrificados avançam por todo o território nacional, assim como a necessidade de treinar os reparadores independentes de todo o Brasil. Alexandre Mol, atual presidente do Sindirepa Brasil, entidade nacional representa 18 sindicatos e presidente do Sindirepa-MG, fala sobre a grandiosidade e importância do setor. “O setor de reparação automotiva brasileiro é um dos maiores e mais importantes do mundo.
De acordo com o Anuário da Reparação Automotiva 2025/2026, o Brasil conta atualmente com 156.647 empresas que reparam veículos, distribuídas em diferentes segmentos de atuação. Somente o estado de Minas Gerais concentra 20.258 estabelecimentos, o que demonstra a relevância do setor para a economia, na geração de empregos e para a mobilidade da população. Esse universo é composto por empresas especializadas em serviços de lanternagem e pintura, manutenção mecânica, reparação elétrica, alinhamento e balanceamento, lavagem, lubrificação e polimento de veículos, borracharia, instalação e manutenção de acessórios, capotaria, além da manutenção e reparo de motocicletas. Trata-se de um segmento de negócios extremamente diversificado, formado, em sua maioria, por pequenas e médias empresas que diariamente atendem milhões de brasileiros”, enumera.

Desde o início, a indústria automobilística evolui, traz soluções, incentiva a criação de novas tecnologias o que afeta toda a cadeia que ela movimenta, ou seja, a indústria de autopeças, os transportadores, distribuidores, lojistas e reparadores. A chegada dos modelos eletrificados é mais um movimento que marca essa evolução. “Com a chegada da eletrificação da frota nacional, surge um novo desafio para toda a cadeia da reparação automotiva.
Embora o número de veículos elétricos e híbridos esteja em constante crescimento, o Brasil ainda se encontra em uma fase de transição no que diz respeito à estrutura técnica, à capacitação profissional e, principalmente, à regulamentação das atividades relacionadas à sua manutenção. Atualmente, não existe uma Norma Técnica Brasileira (ABNT) específica que estabeleça critérios técnicos e de segurança para a reparação de veículos elétricos, apenas uma diretriz (ABNT PR 1025).
Da mesma forma, ainda não há um levantamento estatístico oficial que permita identificar quantas oficinas são efetivamente especializadas nesse tipo de atendimento. Na prática, muitas oficinas independentes já realizam serviços de baixa complexidade em veículos eletrificados, como manutenções preventivas, suspensão, freios, pneus, alinhamento, balanceamento e outros serviços que não envolvem diretamente o sistema de alta tensão.
Entretanto, quando são necessárias intervenções nas baterias, motores elétricos ou componentes de alta voltagem, a maior parte desses veículos ainda é encaminhada para as concessionárias autorizadas. Essa realidade demonstra que o mercado ainda está em processo de amadurecimento. Para que as oficinas independentes possam ampliar sua participação nesse segmento, será necessário um conjunto de ações que envolvem normalização técnica, capacitação profissional, investimentos em infraestrutura, aquisição de equipamentos específicos e definição de protocolos de segurança. Nesse contexto, o Sistema S desempenha um papel fundamental.
O SENAI, principal instituição de formação profissional da indústria brasileira, já oferece, em diversas unidades do país, cursos voltados à introdução dos veículos elétricos e híbridos. Embora esses treinamentos ainda tenham caráter inicial e introdutório, representam um passo importante para preparar os profissionais diante da transformação tecnológica vivida pelo setor”, avalia.
O reparo nos automóveis exige que os profissionais realizem serviços técnicos e de qualidade, neste quesito o IQA – Instituto da Qualidade Automotiva é um aliado dos profissionais da reparação, afirma Mol. “Outro importante agente é o IQA, que disponibiliza treinamentos específicos, os quais abordam os requisitos mínimos para o atendimento de veículos eletrificados, inclui aspectos relacionados à infraestrutura da oficina, áreas segregadas para intervenção, procedimentos operacionais e utilização correta dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), fundamentais para garantir a segurança dos profissionais.
O Sindirepa Brasil, de forma permanente, acompanha essa evolução tecnológica e entende que a eletrificação da frota é um caminho sem volta. No entanto, também acredita que o crescimento sustentável desse mercado depende da construção de uma base técnica sólida, respaldada por normas nacionais, capacitação contínua e padronização dos processos. Por essa razão, enquanto a regulamentação brasileira específica ainda está em desenvolvimento, nossa atuação tem sido direcionada à conscientização do setor por meio de palestras, seminários, cursos, treinamentos e debates técnicos, sempre em parceria com instituições de ensino, fabricantes, entidades técnicas e demais agentes da cadeia automotiva.
Temos a convicção de que, com a futura publicação de uma Norma Brasileira da ABNT voltada à reparação de veículos elétricos, será possível oferecer às oficinas independentes diretrizes claras sobre infraestrutura, procedimentos operacionais, qualificação profissional, segurança e boas práticas. Esse será um marco importante para ampliar a participação da reparação independente nesse novo mercado, o que proporcionará maior segurança aos profissionais, confiança aos consumidores e desenvolvimento sustentável para toda a cadeia da reparação automotiva brasileira, finaliza o presidente do Sindirepa Brasil.
O mercado independente terá papel decisivo
Atualmente a FENABRAVE reúne 59 Associações de marca, como automóveis, motos e caminhões, isso representa mais de 8.400 unidades, espalhadas em 942 cidades. Deste total pouco mais de 1.300 unidades representam as marcas chinesas, as maiores vendedoras de híbridos e elétricos.
Entretanto, o Brasil possui mais de 5.500 municípios. Isso demonstra que fabricantes e importadoras dependerão cada vez mais das oficinas independentes para atender a crescente frota de veículos eletrificados.
Uma oportunidade para o futuro da reparação
O crescimento constante dos veículos híbridos e elétricos mostra que essa transformação já faz parte da realidade do mercado automotivo. Para as oficinas independentes, investir em capacitação, infraestrutura e segurança representa uma oportunidade concreta para ampliar serviços, conquistar novos clientes e garantir competitividade nos próximos anos.
Sua oficina está preparada para oferecer estes serviços?
Por: Edison Ragassi
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