Reposição Automotiva

Marcas Próprias avançam na agenda estratégica do aftermarket

Debate no Seminário da Reposição Automotiva 2026 mostra que tema deixa de estar concentrado em preço e passa por qualidade, portfólio, diferenciação, relacionamento com fornecedores e confiança do reparador

A evolução das Marcas Próprias no aftermarket brasileiro ganhou espaço relevante durante o Seminário da Reposição Automotiva 2026, realizado no dia 6 de outubro, na FIESP, em São Paulo.

A 32ª edição do evento reuniu representantes da indústria, distribuição, varejo e reparação e colocou o tema no centro do Painel da Distribuição, que discutiu competitividade, diferenciação, composição de portfólio e novos modelos de negócio.

Acompanhando o evento como participante, Douglas Almeida, da DBA•360, observou que as discussões mostraram uma mudança importante na forma como as Marcas Próprias começam a ser tratadas pelo setor.

“Saí do Seminário com uma percepção ainda mais clara de que Marca Própria não pode ser reduzida a uma alternativa de preço. O debate avançou para questões como posicionamento, qualidade, homologação, cobertura de portfólio, relacionamento com fabricantes, margem e, principalmente, confiança de quem aplica a peça”, avalia Douglas Almeida.

Distribuição coloca Marca Própria dentro da estratégia

Moderado por Edson Brasil, o painel reuniu Allan Porto, da Autonorte; Antônio Barros, da Barros Autopeças; Milan Tomovic, da DPaschoal; e Paulo Navi, do Grupo Real.

As experiências compartilhadas mostraram diferentes estágios de desenvolvimento de Marcas Próprias dentro da distribuição brasileira, com referências como PRIMA PARTS, da Autonorte; ADVANCE, da Barros Autopeças; e MIDEPARTS, do Grupo Real. O ecossistema Stellantis e sua marca BPROAUTO também apareceram nas discussões.

Embora cada empresa tenha sua própria estratégia, alguns pontos convergiram ao longo do debate.

Qualidade foi tratada como condição básica. Também ganharam destaque a seleção e homologação dos fornecedores, a construção do portfólio, o controle sobre as aplicações, a informação técnica, a política de garantia e a necessidade de preservar o relacionamento com as marcas tradicionais já presentes na distribuição.

Outro aspecto relevante foi a possibilidade de a Marca Própria funcionar como instrumento de consolidação de portfólio. Em determinadas famílias, nenhum único fabricante oferece toda a cobertura necessária. A distribuidora pode, portanto, trabalhar com diferentes fornecedores especializados e organizar essas aplicações sob uma arquitetura única de marca.

Essa lógica amplia o papel tradicional do distribuidor. Ao colocar sua marca no produto, ele passa a assumir perante o mercado responsabilidades relacionadas à qualidade, especificação, aplicação, garantia e reputação.

O contraponto veio da oficina

O tema ganhou ainda mais profundidade no painel seguinte, dedicado ao varejo e ao aplicador.

Ao representar a visão da oficina, o Professor Scopino apresentou uma posição bastante crítica sobre experiências com determinadas Marcas Próprias de distribuidores, principalmente quando a qualidade do produto e sua origem não são percebidas com clareza pelo reparador.

Para Douglas Almeida, esse contraponto foi um dos momentos mais relevantes do evento.

“Foi interessante observar os dois lados. No painel da distribuição, vimos empresas colocando sua reputação por trás das Marcas Próprias. Depois, na visão do reparador, apareceu a pergunta que talvez seja a mais importante de todas: quem garante, na prática, a qualidade do que está dentro daquela caixa?”

A oficina possui uma equação econômica diferente. Uma falha de produto não representa apenas a troca de uma peça. Pode envolver nova mão de obra, retorno do veículo, ocupação do elevador e desgaste da própria oficina com o consumidor.

Por isso, confiança e redução de retrabalho têm peso elevado na decisão de compra do profissional da reparação.

A segunda compra pode ser mais importante que a primeira

A combinação das discussões dos diferentes painéis permite uma leitura importante sobre o amadurecimento das Marcas Próprias no Brasil.

A primeira venda pode ser conquistada por preço, disponibilidade, incentivo comercial ou atuação do vendedor. A consolidação da marca, porém, depende de uma experiência positiva com o produto.

“A primeira compra coloca a peça no carro. A recompra mostra se a marca conquistou confiança. É nesse momento que uma Marca Própria começa efetivamente a se transformar em um ativo para a empresa”, afirma Douglas Almeida.

Nesse contexto, indicadores tradicionais como faturamento, margem e quantidade de SKUs tendem a ser insuficientes para avaliar a maturidade de uma Marca Própria. Recompra, garantia, devoluções, cobertura de aplicações e aceitação do reparador também passam a ser variáveis estratégicas.

Portfólio ganha complexidade

O próprio Painel da Indústria reforçou outro desafio relacionado ao tema.

A frota brasileira continuará convivendo por muitos anos com diferentes tecnologias, gerações e motorizações. Veículos a combustão, híbridos e elétricos ampliam a diversidade das aplicações e pressionam fabricantes e distribuidores a administrar um número crescente de itens.

Isso aumenta a importância de decisões mais criteriosas de portfólio.

Não se trata simplesmente de adicionar referências, mas de entender quais famílias possuem demanda, cobertura de frota, giro, rentabilidade e capacidade de fornecimento suficientes para justificar sua entrada.

Nesse cenário, inteligência de frota e conhecimento das aplicações tornam-se cada vez mais importantes para o desenvolvimento de linhas próprias.

Marca Própria não significa ruptura com a indústria

Outro aspecto relevante do debate foi a relação entre distribuidores e fabricantes tradicionais.

A evolução das Marcas Próprias não foi apresentada necessariamente como substituição das marcas existentes. Uma das visões defendidas foi justamente a de utilizar a Marca Própria para complementar portfólio, ocupar lacunas e criar novas alternativas de posicionamento.

Para Douglas Almeida, esse ponto merece atenção.

“O desenvolvimento saudável de Marcas Próprias não precisa ser uma estratégia de confronto com a indústria. Há espaço para modelos complementares, desde que exista clareza sobre posicionamento, categoria, qualidade e papel de cada marca dentro do portfólio.”

Uma agenda que deve continuar

As discussões do Seminário indicam que Marcas Próprias devem permanecer na agenda estratégica do aftermarket brasileiro nos próximos anos.

Mas o amadurecimento do mercado tende a elevar também o nível de exigência.

O desenvolvimento deixa de ser apenas uma decisão de compras ou uma nova embalagem e passa a envolver uma cadeia maior de decisões: cliente, posicionamento, portfólio, fornecedor, homologação, qualidade, preço, estoque, catálogo, treinamento, garantia e recompra.

“Talvez a principal conclusão que eu tenha levado do evento seja justamente essa: uma Marca Própria bem construída não começa na embalagem. Ela começa na estratégia e só se confirma quando o mercado volta a comprar”, conclui Douglas Almeida.

Douglas Almeida
Atua há mais de 25 anos no aftermarket automotivo e é responsável pela DBA•360, iniciativa voltada à estruturação de Marcas Próprias, desenvolvimento de portfólio e inteligência aplicada ao mercado de reposição automotiva.

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