Como fazer teste de estrada bem sucedido

Também conhecido como testes de rodagem, é uma parte importante do trabalho do técnico reparador, pois não é possível confirmar o reparo sem ele

O teste de estrada é sua primeira, e às vezes única, chance de identificar um problema. Ele pode ser realizado antes mesmo de tocar em qualquer ferramenta. Muitos técnicos ainda realizam o “teste de estrada PRD” (ESTACIONAMENTO > RÉ > DRIVE), dão uma volta no quarteirão e consideram o trabalho concluído.

Um verdadeiro teste de estrada para diagnóstico é meticuloso, estruturado e projetado para separar problemas hidráulicos, mecânicos, eletrônicos ou de comando, e fatores externos que possam contribuir para o problema. Siga este guia passo a passo para realizar um teste de estrada como um profissional.

PASSO 1: SEGURANÇA EM PRIMEIRO LUGAR

Antes de o veículo se mover um centímetro sequer, confirme se é seguro operá-lo.

Realize uma verificação de segurança antes de dirigir. Certifique-se de que não haja painéis da carroceria ou componentes da parte inferior do veículo soltos (por exemplo, para-choques, protetores de escapamento, acabamentos), e que os freios e a suspensão estejam em boas condições de funcionamento. Se o pedal do freio afundar até o assoalho ao ser pressionado ou se alguma roda estiver solta, não dirija o veículo no trânsito. Nada deve obstruir a visibilidade através do para-brisa ou das janelas. Nada deve interferir com o conjunto do pedal, o volante ou a operação do veículo pelo motorista.

Verificar a função PARK – Verificação de segurança mais crítica

Certifique-se de que a transmissão mantém o veículo parado em uma inclinação. Um mecanismo de estacionamento com defeito, um cabo de câmbio mal ajustado ou um sistema de estacionamento eletrônico com falha podem causar movimentos involuntários do veículo. Sempre verifique isso antes de sair do banco do motorista.

ETAPA 2: VERIFIQUE A QUALIDADE DOS ENGATES

A forma como a transmissão engata as marchas revela informações cruciais sobre o estado do sistema hidráulico e a estratégia de comando. Observe se há atraso no engate da marcha à ré e da marcha à frente, engates lentos ou suaves, engates bruscos ou secos e engates duplos em Drive ou Ré. Esses não são passos específicos de diagnóstico, mas sim uma direção para o seu processo de diagnóstico.

O engate lento pode ser causado por baixa pressão na linha (comandada ou real), bomba com defeito, problemas na válvula de controle de pressão, fluido aerado ou em nível baixo, falta de comando de aumento da pressão na linha, cabo de mudança de marcha mal ajustado, retorno do conversor de torque (fluido interno drenando para o cárter, exigindo um tempo de reabastecimento antes do movimento).

A dificuldade no engate da embreagem pode ser causada por pressão excessiva na linha devido a um solenoide EPC/PCS travado, comando do PCM para pressão máxima na linha devido ao modo de segurança/emergência, sensor de posição da alavanca desajustado, suportes do motor ou da transmissão quebrados ou danificados, fluido incorreto ou contaminado afetando a aplicação da embreagem, aterramento deficiente ou queda de tensão. A maioria dos sistemas de controle de transmissão utiliza a pressão máxima na linha quando o controle eletrônico é perdido.

Compare a sensação de engate com as especificações de “tempo de troca de marcha” da montadora. A maioria dos fabricantes publica faixas de engate aceitáveis. Qualquer valor fora dessas faixas é um indício de problema.

PASSO 3: DIRIJA COM INTENÇÃO, NÃO COM HÁBITO

Um teste de estrada adequado coloca à prova todas as capacidades mecânicas e estratégias de comando. Não se trata apenas de dirigir.

Selecione manualmente todas as opções disponíveis: Manual 1 (Baixa), Manual 2, Manual 3 (se equipado), Drive, Overdrive / 5ª / 6ª / 8ª / 10ª / etc., Sport, Neve, Reboque/Carga e outros modos de condução. Consulte as informações de serviço do fabricante para sua plataforma específica. Cada opção e modo possui estratégias exclusivas.

Você está avaliando o seguinte:

  • A transmissão mantém a marcha selecionada sob carga?
  • O veículo oferece freio motor em marchas mais baixas?

Uma condição de rolamento livre em marcha baixa pode indicar uma falha na embreagem unidirecional ou na embreagem de roletes.

Exemplo de dica de diagnóstico: Se a marcha Manual 2 estiver funcionando corretamente, mas a marcha Drive 2 estiver patinando, é provável que o componente da embreagem usado na marcha Manual 2 não esteja com defeito. Isso permite eliminar certos componentes usando a tabela de aplicação da embreagem.

Traga seu scanner

Um scanner não indica qual componente falhou. Ele indica qual sistema apresenta uma falha e auxilia no diagnóstico desses componentes.

Durante o teste de estrada, permite monitorar ou controlar solenoides, aplicação/liberação do conversor de torque, comandos de pressão da linha, reinicializações adaptativas/aprendizagem da embreagem e tempo de troca de marchas. O controle bidirecional pode acelerar drasticamente o diagnóstico, especialmente para problemas intermitentes. Lembre-se porém: Não faça tudo isto sozinho, pois ler e interpretar um scanner e dirigir ao mesmo tempo pode desviar sua atenção e causar acidentes. Leve sempre alguém junto com você quando realizar o teste com scanner!

PASSO 4: CONHEÇA SEUS PONTOS DE TROCA DE MARCHA

A sincronização das trocas de marcha é projetada, não aleatória. Se você não sabe o que deveria acontecer, não pode diagnosticar o que não deveria.

Você deve conhecer os pontos de troca de marcha esperados em aceleração leve, moderada e forte; quando o travamento do conversor de torque (TCC) deve ser acionado e liberado; as velocidades comandadas para 3ª–4ª, 4ª–5ª, etc.; e como o sistema de segurança se comporta; marcha fixa, pressão máxima da linha, condição de não movimento e velocidade limitada.

Onde encontrar as especificações dos tempos de mudanças

Serviços de dados como Alldata, Mitchell1, Identifix e sites de serviço de fabricantes de equipamentos originais (OEM), fornecem as especificações necessárias. A Figura 1 mostra uma programação típica de trocas de marcha do HP Tuners para uma transmissão 6L50 (1ª a 4ª marchas). Isso demonstra o comportamento esperado pelo módulo de controle do motor (PCM). Qualquer desvio significativo do comportamento esperado indica uma falha, ou seja, algo dentro da transmissão não está respondendo conforme o esperado.

PASSO 5: PROCURE POR VIBRAÇÕES EM ACELERAÇÃO, ATRASO OU EVENTOS BRUSCOS

Vibrações, especialmente em aceleração

Frequentemente diagnosticado erroneamente como falha do conversor de torque, mas também pode ser causado por transições do sistema de gerenciamento de ar/desativação de gases de escape (AFM/DOD), vibração da transmissão, falha de ignição, combustível de má qualidade ou contaminado, ou mau funcionamento da injeção direta. Um teste de estrada realizado por um profissional qualificado distingue problemas no motor da trepidação do conversor de torque.

Sinalizador

Aumento da rotação do motor entre as trocas de marcha sem aceleração correspondente.

As causas mais comuns são baixa pressão na linha de fluido, solenoide de mudança defeituoso, fluido contaminado ou queimado, desgaste interno da embreagem, dados incorretos do MAF/MAP afetando o tempo de troca de marchas, vazamentos internos ou perda de pressão. O registro de dados é essencial nesses casos.

Atraso

Uma mudança que ocorreu mais tarde do que o esperado; não foi um deslize nem um problema.

Geralmente causado por uma válvula de mudança de marcha travada, atraso no comando do PCM, modos selecionados pelo motorista (reboque/carga, mudança por toque, etc.), tamanho incorreto do pneu ou relação do eixo (incompatibilidade do sensor de velocidade do veículo).

Trancos durante trocas das marchas

Trocas de marcha brusca e repentinas geralmente indicam sincronização inadequada da embreagem (embreagens de entrada e saída acionadas simultaneamente), pressão da linha superior à comandada (problema no EPC/PCS), suportes quebrados ou danificados, alta pressão da linha devido à estratégia de segurança, falha no acumulador ou no circuito do amortecedor.

O reconhecimento de padrões é importante

Cada troca de marcha brusca geralmente indica um problema geral de pressão na linha de transmissão. Uma única troca de marcha brusca geralmente indica um problema de sincronização entre as embreagens.

ETAPA 6: VALIDAR COMANDOS VERSUS RESULTADOS

Seus sentidos são bons. Os dados os tornam ainda melhores. Use um scanner para comparar a marcha selecionada, a pressão de mudança comandada, a pressão real da linha, o deslizamento desejado versus o real do conversor de torque, a velocidade do eixo de saída e a velocidade do eixo de entrada (se equipado).

Se o módulo de controle do motor (PCM) comandar uma mudança de marcha, mas a relação de transmissão não mudar, é provável que haja uma falha hidráulica ou mecânica interna. Se o PCM não comandar uma mudança de marcha, é provável que haja um problema de entrada, sensor ou elétrico.

O HP Tuners VCM Scanner/Editor é uma excelente ferramenta para visualizar essas relações.

PASSO 7: NÃO ESQUEÇA DO COMPORTAMENTO A PROVA DE FALHAS

Muitas transmissões entram em modo de segurança devido a problemas externos, e não a danos internos.

Os modos de segurança mais comuns incluem uma marcha à frente mais a ré, alta pressão na linha, parado/apenas em ponto morto, aceleração ou RPM limitadas e operação com velocidade restrita. Os manuais do fabricante listam os gatilhos exatos, incluindo os códigos de falha (DTCs) e o modo de falha resultante. Compreender o comportamento dos modos de segurança evita a substituição desnecessária da transmissão.

Reproduza as condições do cliente

Ao realizar o teste de estrada, é fundamental reproduzir as condições em que o cliente relatou o problema. Isso pode exigir temperaturas de operação específicas ou uma determinada distância percorrida. Um bom consultor de serviços pode economizar um tempo valioso de diagnóstico, documentando esses detalhes com precisão.

Também é benéfico testar o veículo em diferentes estilos de condução. Acelere em todas as marchas: leve, moderada e forte. Respeite os limites de velocidade e a segurança dos outros motoristas. Use o bom senso.

O comportamento adaptativo importa

As transmissões modernas aprendem e se adaptam ao comportamento do motorista.

Se você notar uma derrapagem durante a troca da 4ª para a 5ª marcha com aceleração moderada, anote a posição do acelerador, a velocidade do veículo e a carga. Em seguida, tente reproduzir o problema várias vezes. Se o PCM nunca tiver detectado essa derrapagem antes, ele poderá se adaptar e corrigi-la. Isso não significa necessariamente que haja uma falha, mas sim que o sistema está funcionando conforme o projetado.

CONCLUSÃO

Um teste de estrada correto não é opcional. Ele é estruturado, intencional e baseado em dados do fabricante original. Ajuda a determinar se um problema é hidráulico, mecânico, elétrico, relacionado a sensores, causado pelo motorista ou por modificações no veículo.

Um teste rápido de PRD (disfunção reprodutiva) deixa passar mais de 80% dos indícios diagnósticos importantes. Quando você sabe como é a aparência e a sensação de um “bom” estado, reconhecerá um “mau” estado instantaneamente.

Tenham todos um ótimo mês de trabalho!!

Carlos Napoletano
Engenheiro mecânico com 42 anos de atuação no setor automotivo, sendo 28 anos dedicados à especialização em transmissões automáticas. Diretor Técnico da APTTA Brasil.