O avanço dos veículos elétricos e híbridos aumenta a necessidade de rastrear as baterias ao longo de seu ciclo de vida. Nesse contexto, o Passaporte Digital de Baterias surge como uma ferramenta para reunir informações sobre fabricação, composição, utilização, manutenção, desempenho e destinação.
A tecnologia pode ganhar espaço no Brasil conforme avançam as discussões sobre circularidade e logística reversa de baterias. Além disso, o sistema pode apoiar processos de reutilização, remanufatura e reciclagem.
Projeto de lei prevê circularidade das baterias
O Projeto de Lei 2.132/2025 propõe a criação da Política Nacional de Circularidade das Baterias (PNCB). A iniciativa busca incentivar ações de descarbonização e ampliar a economia circular.
A proposta também estabelece responsabilidade compartilhada entre os integrantes da cadeia pela destinação das baterias de veículos elétricos ao fim de sua vida útil.
Na versão aprovada pela Comissão de Meio Ambiente do Senado, a logística reversa poderá ocorrer por meio de acordo setorial, termo de compromisso ou regulamentação específica.
Caso o projeto avance, a necessidade de acompanhar a trajetória das baterias tende a ganhar relevância. Por isso, o passaporte digital pode ajudar a organizar informações atualmente distribuídas entre fabricantes, montadoras, oficinas, concessionárias, recicladoras e outros agentes.
Cada bateria pode ter uma identidade digital
Na prática, o Passaporte Digital de Baterias funciona a partir de um registro único associado à bateria e às suas células. O acesso pode ocorrer por tecnologias como QR Code ou RFID.
Dessa forma, cada participante autorizado pode consultar ou atualizar informações conforme sua função na cadeia.
O fabricante, por exemplo, pode registrar dados de produção e composição. Já as empresas de manutenção podem inserir informações sobre reparos e substituições.
Ao mesmo tempo, usuários e operadores podem acompanhar indicadores de desempenho. Posteriormente, recicladores podem utilizar os dados para avaliar as condições do produto e definir sua destinação.
“A cada bateria recebe um token, que funciona como uma ‘certidão de nascimento digital’ do produto. A partir dele, os eventos do ciclo de vida, como fabricação, instalação no veículo, manutenção, degradação, transferência de propriedade e reciclagem, podem ser registrados de forma permanente e auditável”, explica Tathiana Canan, cofundadora da Vetrii.
Blockchain registra o ciclo de vida
No Brasil, a Vetrii desenvolve uma plataforma de Passaporte Digital de Baterias em parceria com o Projeto Estruturante do Instituto Senai de Inovação em Eletroquímica (ISI-Eletroquímica).
A solução utiliza blockchain e arquitetura Web3 para registrar eventos relacionados ao ciclo de vida das baterias. Assim, a tecnologia cria uma estrutura compartilhada para armazenar os registros.
Entretanto, o blockchain representa apenas uma parte da solução. Para que os dados tenham utilidade na indústria, também é necessário garantir a qualidade e a confiabilidade das informações técnicas.
Nesse ponto, o ISI-Eletroquímica contribui com protocolos de medição, ensaios laboratoriais e validação de indicadores relacionados ao desempenho das baterias. Entre eles estão o estado de saúde (SOH) e o estado de carga (SOC).
“A principal contribuição do ISI-Eletroquímica é fornecer a base científica e experimental para transformar os dados do passaporte digital em informações confiáveis sobre o desempenho, a segurança, a degradação e a vida útil das baterias”, afirma Marcos Berton, pesquisador-chefe do instituto.
Dados podem apoiar a segunda vida das baterias
A rastreabilidade também pode contribuir para definir o destino das baterias que deixam de atender aos requisitos de sua aplicação original.
Antes de seguir diretamente para a reciclagem, algumas unidades podem apresentar condições para reutilização ou remanufatura. Para isso, é necessário avaliar fatores como histórico de utilização, degradação e estado de saúde.
Com essas informações, fabricantes, empresas e recicladores podem analisar com maior precisão as possibilidades de uso de cada bateria ou célula.
Essa necessidade ganha importância com o crescimento da frota eletrificada brasileira. Segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) apresentados no material, o País registrou 57.386 emplacamentos de veículos eletrificados leves em agosto de 2026.
Com isso, a frota acumulada chegou a 950.183 unidades na série histórica da entidade. O crescimento da frota também tende a ampliar, nos próximos anos, o volume de baterias que chegará ao fim de sua primeira vida útil.
Além disso, a circularidade envolve materiais considerados estratégicos, como lítio, níquel e cobalto. Portanto, recuperar esses elementos e ampliar as possibilidades de segunda vida pode contribuir para estruturar uma cadeia nacional de reaproveitamento.
Solução está em fase de validação
A plataforma desenvolvida pela Vetrii e pelo ISI-Eletroquímica está atualmente em fase de validação. O planejamento prevê a tokenização das baterias em paralelo ao processo de fabricação dentro do projeto estruturante.
A validação em ambiente real está prevista para o segundo semestre de 2026.
Além do blockchain, a solução prevê acesso por QR Code ou RFID e integração de dados técnicos e ambientais. A proposta também inclui uma estrutura de governança compartilhada.
Dessa forma, cada participante pode registrar, consultar e validar informações de acordo com suas atribuições.
Mais do que criar um histórico digital, o objetivo é transformar esses dados em suporte para a tomada de decisões. Com informações sobre a trajetória de cada bateria e suas células, fabricantes, recicladores e órgãos reguladores podem acompanhar melhor o produto durante todo o ciclo de vida.
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